sábado, 12 de agosto de 2017

QUE PAI VOCÊ TEM SIDO?


Por Pr. Silas Figueira

Texto Base: Efésios 6.4

INTRODUÇÃO

Estamos vivendo um período onde a palavra paternidade perdeu o seu verdadeiro sentido. Ser pai hoje, para muitas pessoas, é ser apenas o progenitor e não aquele que é exemplo na criação. E por que muitos pais não são exemplo para os seus filhos? Creio que podemos enumerar alguns motivos: 1) muitos pais não são exemplo para os seus filhos porque não tem maturidade para tal compromisso, muitos por terem sido pais cedo demais. 2) outros por não assumirem a paternidade – fazer filho é uma coisa, assumi-los é algo totalmente diferente. 3) outros porque nunca tiveram um exemplo de pai dentro de casa.

E muitos desses “pais” não assumem seu papel de pai porque foram criados sem limites e sem disciplina. Quando deveriam ser corrigidos, eles foram acobertados. É o caso do filho de uma desembargadora que foi detido com 130 quilos de maconha, centenas de munições de fuzil e uma pistola nove milímetros. A saída do presídio aconteceu depois de dois habeas corpus, pois, segundo a família, ele tem problemas psiquiátricos. No entanto, esse mesmo cidadão tinha outro mandado de prisão pois também é investigado pela Polícia Federal pela participação no plano de fuga de um chefe do tráfico de drogas.

Ser pai é um grande privilégio, mas também nos leva a refletir sobre sua grande responsabilidade. Ser pai implica em fazer diferença na vida dos filhos. Significa que este filho ao olhar para o seu pai veja nele o melhor exemplo de homem. O verdadeiro pai deixa de herança para os seus filhos o exemplo e não bens materiais. E um dos maiores exemplos que um pai pode deixar para os filhos é amar a mãe deles.

A Bíblia nos dá alguns exemplos de pais que fizeram diferença na vida de seus filhos, uns de forma positiva, outros, infelizmente, de forma negativa. Por isso que eu quero pensar com você que tipo de pai você tem sido analisando a vida e o exemplo de alguns desses pais.

1 – ABRAÃO O PAI QUE É EXEMPLO DE FÉ (Hb 11.17-19).

Pela fé Abraão, quando Deus o pôs à prova, ofereceu Isaque como sacrifício. Aquele que havia recebido as promessas estava a ponto de sacrificar o seu único filho, embora Deus lhe tivesse dito: "Por meio de Isaque a sua descendência será considerada". Abraão levou em conta que Deus pode ressuscitar os mortos; e, figuradamente, recebeu Isaque de volta dentre os mortos.

Quando lemos a história de Abraão nós vemos o quanto ele foi crescendo na fé a medida que andava com Deus. Foi um processo longo, mas que resultou em um grande amadurecimento na fé.

Cerca de 45 anos depois dele ter saído da terra de Ur dos Caldeus, Abraão se vê agora sendo provado pelo Senhor. Encontramos essa história em Gênesis 22. Mas eu quero me deter aqui em Hebreus, pois o autor nos mostra que pela fé Abraão cria que o Senhor era poderoso para ressuscitar o seu filho. Através desse texto aprendemos três lições:

1º - Um pai que anda pela fé entrega seus filhos ao Senhor. Abraão não questionou com Deus a respeito do que Ele estava lhe pedindo. Ele não tentou argumentar se não podia trocar Isaque por Ismael. Ele simplesmente obedeceu (Gn 22.1-3).

“Passado algum tempo, Deus pôs Abraão à prova, dizendo-lhe: "Abraão! " Ele respondeu: "Eis-me aqui". Então disse Deus: "Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei". Na manhã seguinte, Abraão levantou-se e preparou o seu jumento. Levou consigo dois de seus servos e Isaque seu filho. Depois de cortar lenha para o holocausto, partiu em direção ao lugar que Deus lhe havia indicado” (NVI).

O Senhor lhe fez um pedido específico e ele não retrucou, simplesmente fez o que lhe foi pedido. Isso é fé. É reconhecer que o Senhor tem o direito de pedir o que lhe pertence. Se um dia você apresentou seus filhos a Deus e os entregando a Ele, saiba que eles pertencem ao Senhor.  

Você não é dono de seus filhos, você é responsável por cria-los nos caminhos do Senhor, isso é um fato, mas nós não somos donos deles. Eles pertencem ao Senhor, assim como tudo o que temos.

2 – Um pai que anda pela fé não duvida da onipotência de Deus. Abraão levou em conta que Deus pode ressuscitar os mortos; e, figuradamente, recebeu Isaque de volta dentre os mortos.

Nunca na história bíblica se havia visto ou ouvido de alguém que o Senhor havia ressuscitado, no entanto, Abraão cria que o Senhor (que havia feito a promessa de que seu filho Isaque seria sua descendência) iria ressuscitá-lo. Por isso que Abraão não questionou, mas fez o que lhe foi mandado.

Meus irmãos, será que seus filhos têm visto em você está fé? Uma fé que crê na intervenção divina na história? Um Deus que tem poder para cumprir as promessas que um dia lhe foram dadas? Um Deus que pode trazer a existência as coisas que não existem (Rm 4.17)?

Quantos pais que são frequentadores de igrejas, mas que não tem uma experiência viva com Deus. Falam de fé, mas vivem focados nas coisas materiais. Duvidam da intervenção divina na história de suas vidas e na história de seus filhos. Vivem uma religiosidade morta, uma religiosidade de fachada.

Muitos pais construíram suas casas espirituais na areia e não sobre a rocha (Mt 7.26,27):

“Mas quem ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda” (NVI).

3º - Um pai que anda pela fé verá pela fé o milagre da ressurreição na vida dos seus filhos. Abraão [...] figuradamente, recebeu Isaque de volta dentre os mortos.

Abraão creu e viu o milagre em sua vida. Ele recebeu Isaque de volta dentre os mortos - figuradamente. Essa é a diferença entre servir a Deus pelo o que Ele é e não pelo o que Ele dá e faz.

Eu sei que há muitos pais que estão sofrendo pelos seus filhos. Muitos deles totalmente afastados do Senhor. Crianças que foram criadas nos caminhos do Senhor, mas que hoje, infelizmente, estão trilhando um caminho extremamente perigoso.

Não desista dos seus filhos. Creia que o Senhor há de ressuscitá-los. Que aqueles que um dia foram entregues aos Senhor, pela infinita graça voltarão à comunhão com o Pai. Lembre-se do filho pródigo. Sabemos que é uma parábola, mas que retrata muito bem o amor do Pai e o desejo de ver os seus filhos de volta ao lar.

2 – JÓ UM PAI QUE INTERCEDIA PELOS SEUS FILHOS (Jó 1.1-5).

Há homens que ganham notoriedade no mundo e fracassam como pais. Que conquistam riquezas e perderam os filhos; que tiveram tempo para estranhos, mas nunca para os filhos; que cultivam a simpatia de estranhos, mas abriram feridas na alma dos filhos [1].

Os filhos não precisam de presentes, mas da presença do pai. Alguns pais para compensar a sua ausência dão presentes, satisfazem todos os desejos dos filhos sem questioná-los. Tudo isso para compensar a sua ausência.

O Rev. Hernandes Dias Lopes diz que Jó exercia plenamente o sacerdócio no seu lar. E ele destaca quatro verdades a respeito do zelo de Jó pelos seus filhos [2]:

1º - Jó se preocupava com a salvação de seus filhos (Jó 1.5). Uma das coisas que deve ser a nossa real preocupação é a salvação de nossos filhos. Não adianta eles se projetarem na vida profissional e não terem o nome escrito no Livro da Vida.

Mas para que os nossos filhos tenham a esperança da vida eterna, nós pais, devemos falar e testemunhar de Deus para eles. Como disse Larry Christenson: “Devemos apresentar Deus aos filhos através da Palavra” [3].

Como nos fala o Salmo 78.1-8:

“Povo meu, escute o meu ensino; incline os ouvidos para o que eu tenho a dizer. Em parábolas abrirei a minha boca, proferirei enigmas do passado; o que ouvimos e aprendemos, o que nossos pais nos contaram. Não os esconderemos dos nossos filhos; contaremos à próxima geração os louváveis feitos do Senhor, o seu poder e as maravilhas que fez. Ele decretou estatutos para Jacó, e em Israel estabeleceu a lei, e ordenou aos nossos antepassados que a ensinassem aos seus filhos, de modo que a geração seguinte a conhecesse, e também os filhos que ainda nasceriam, e eles, por sua vez, contassem aos seus próprios filhos. Então eles porão a confiança em Deus; não esquecerão os seus feitos e obedecerão aos seus mandamentos. Eles não serão como os seus antepassados, obstinados e rebeldes, povo de coração desleal para com Deus, gente de espírito infiel” (NVI). 

2º - Jó se preocupava com a santificação de seus filhos (Jó 1.5). Jó ao oferecer dez ofertas queimadas em nome de cada jovem adulto, ele se preocupava com a ideia de que poderiam haver no coração deles uma pitada de desobediência, ou que talvez um deles tivesse contado uma piada vulgar durante seus encontros frequentes. Jó é profundamente zeloso – espiritualmente sensível não só em relação a sua vida, mas no que se referia à coerência da vida dos filhos. Jó era homem de oração. Verdadeiro sacerdote [4].

3º - Jó se preocupava com a vida íntima de seus filhos (Jó 1.5). Devemos nos preocupar com a vida de nossos filhos longe dos nossos olhos. Devemos interceder para que a conduta deles condiga com a vida que professam ter dentro da igreja.

Jó dizia: “Talvez os meus filhos tenham lá no íntimo pecado e amaldiçoado a Deus”.

Esta também deve ser a nossa preocupação. Devemos ensinar aos nossos filhos que eles são crentes em Jesus longe e perto de nós. Que os olhos do Senhor estão em todos os lugares.

4º - Jó era um pai intercessor (Jó 1.5). Na era patriarcal os pais eram também os sacerdotes dentro de suas casas, posteriormente com a Lei sendo estabelecida é que a tribo de Levi ficou com essa incumbência.

Mas ainda hoje devemos ser sacerdotes em nossos lares, intercedendo pelos nossos filhos. Devemos orar constantemente por eles e com eles. Devemos ter em mente que a oração de um justo vale muito em seus efeitos (Tg 5.16).

Na família de Tim Cimbala, pastor em Nova York, sua filha primogênita estava se tornando resistente ao evangelho e começou a viver uma vida de rebeldia, mundanismo e pecado. Não demorou muito até se rebelar contra os pais e sair de casa. Seus pais choraram, sofreram e começaram a definhar a ponto de os amigos lhes dizerem para desistirem de procurá-la. Contudo, numa celebração de vigília, uma irmã interrompeu e disse que deveriam clamar por sua filha e todos deram as mãos e oraram. Ali se tornou uma “sala de parto” onde as dores e os gemidos eram expressos diante de Deus. Quando o pastor voltou para a casa ele disse à sua esposa: “Se há Deus no céu, nossa filha já foi liberta hoje”. Dois dias depois ela voltou para casa liberta e sarada. Deus restaurou aquela menina e o instrumento que Deus usou foi a oração intercessória.

Por isso meu querido pai não desista de seus filhos, ore por eles. Os apresente constantemente ao Senhor, pois Ele é que, através do Espírito Santo, convence-os do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8).

3 – GILEADE UM PAI AUSENTE (Jz 11.1-3).

“Jefté, o gileadita, era um guerreiro valente. Sua mãe era uma prostituta; seu pai foi Gileade. A mulher de Gileade também lhe deu filhos, que quando já estavam grandes, expulsaram Jefté, dizendo: "Você não vai receber nenhuma herança de nossa família, pois é filho de outra mulher". Então Jefté fugiu dos seus irmãos e se estabeleceu em Tobe. Ali um bando de vadios uniu-se a ele e o seguia” (NVI).

Jefté foi um dos juízes em um período caótico da história de Israel, 1380 a 1050 a. C: “Não havia rei em Israel, porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” Jz 21.25. Vivia em Gileade, sendo membro da tribo de Manasses. A história de Jefté é curiosa, controversa e não conclusiva. Ele nasceu e viveu em um contexto familiar desorganizado. Sua mãe era prostituta, seu pai (Gileade) tinha muitos filhos de outro relacionamento. A ausência do pai na vida de Jefté e depois a sua total indiferença para com ele, fez com que este se tornasse um marginal.

O sucesso de uma sociedade depende do sucesso da família. A forma como a sociedade define moralmente a família estabelece os padrões de conformação da personalidade da futura geração. Dessa forma podemos prever o caos ou a organização da sociedade [5]. Na vida de Jefté foi o caos. 

1º - Gileade foi um pai que criou os filhos sem afetividade com Jefté (Jz 11.2). Aqueles irmãos cresceram com ódio no coração. Tudo porque Gileade era um homem que não criou os filhos com vinculo de afetividade. Eles não se importavam uns com os outros, mas com os bens materiais. Se importavam era com a herança do pai.

Em momento algum vemos Gileade se envolvendo nessa questão. Aliás, Gileade por ser um homem promíscuo gerou isso em seus filhos. Eles, provavelmente, foram criados vendo sempre Jefté como um intruso em suas vidas. Ele era como um estranho no ninho.

Não são poucos os casos de irmãos que não se falam, quando não se odeiam. Muitas vezes não foram os pais que erraram, é bom destacar isto aqui; mas geralmente, muitos pais não envolveram nas brigas e desavenças contínuas entre seus filhos. 

Jacó e Esaú tornaram-se inimigos e a culpa foi dos pais. Posteriormente eles se retrataram, mas o estrago já estava feito entre os seus descendentes. O edomitas - descentes de Esaú - tornaram-se um dos maiores inimigos de Israel.

Pequenas brigas podem se tornar uma grande calamidade. 

2º - Gileade foi um pai ausente (Jz 11.2). Gileade não deu um basta aquela discórdia, ele se ausentou durante todo o tempo e as consequências foram desastrosas. Os outros irmãos se voltaram contra Jefté e o expulsaram de casa. Gileade foi um pai ausente que não defendeu o próprio filho.

Não são poucos os jovens que lutam com questões de identidade sexual, até mesmo desejo desejos homossexuais. Qual é o denominador comum desses homens? Anseiam por um pai. O dano sofrido pelas crianças criadas num lar cujo pai é ausente, cruel ou indiferente é uma ferida aberta (que reflete na sociedade e na igreja) [5].

Observe que o texto nos diz que Jefté fugiu para a terra de Tobe e ali um bando de vadios uniu-se a ele e o seguia. Devido a esse episódio em sua vida, Jefité tornou-se um aventureiro, um salteador. Vivia com seu bando roubando as pessoas e causando terror as pessoas.

Devido a um gigantesco desajuste familiar Jefté tornou-se um homem sem referencial de honestidade, pois cresceu em um lar onde os irmãos disputavam a herança do pai a ponto de o expulsarem por causa dela.  
   
3º - Gileade maculou o leito conjugal (Jz 11.1,2a). Gileade não foi nem exemplo de pai presente e pior, era um adúltero. Que exemplo esse homem poderia ser para os seus filhos? Que conselhos esse indivíduo poderia dar aos seus filhos a respeito de relacionamento conjugal? De fidelidade.

A Bíblia nos mostra muitos outros erros que outros pais cometeram. Homens esses que eram fiéis ao Senhor, mas que erraram na educação dos filhos. É fácil falar de Gileade, mas devemos olhar para esses outros pais também, pois eles, de alguma forma, são como nós também.

A Bíblia registra os resultados infelizes da negligência dos pais para com os filhos, quer dando um mau exemplo, quer deixando de discipliná-los corretamente. Davi mimou Absalão e deu um péssimo exemplo, e as consequências foram trágicas. Eli não disciplinou os filhos, e estes, além de desgraçarem seu nome, trouxeram derrota sobre a nação de Israel. Em sua velhice, Isaque mimou Esaú, e sua esposa demonstrou favoritismo por Jacó, resultando em um lar dividido. Jacó cultivava o seu favoritismo por José, quando Deus resgatou o menino de modo providencial e levou para o Egito, onde o transformou em um homem de caráter [7]. Com isso vemos que a Bíblia não esconde os erros nem dos seus filhos, mas permite que tais erros sejam mostrados para servir de exemplo para todos nós. Devemos aprender a observar os exemplos bíblicos para podermos ter um lar dentro dos seus padrões. Não é fácil, mas devemos lutar por isso.

4 – DEVER DOS PAIS COM OS FILHOS (Ef 6.4).

Nem um de nós é perfeito. Somos falhos, e por sermos falhos, cometemos muitos erros. Mas nós como pais devemos lutar para não errarmos, ou se errarmos, errarmos o menos possível e que tal erro não traga consequências devastadoras para dentro do nosso lar. Devemos nos esforçar para sermos como Abraão um homem de fé, e como Jó, um homem de oração. E devemos fazer de tudo para não cairmos no erro de Gileade.

No entanto, devemos lutar por exercer uma quarta coisa. Aquilo que o apóstolo Paulo nos fala em Efésios 6.4. O texto que lemos no início, que nos diz:

“E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor” (ARA).

O apóstolo Paulo nos dá quatro conselhos em relação a educação dos filhos.

1º - Os pais não devem lhes provocar a ira. No tempo de Paulo, o pai exercia autoridade suprema sobre a família. No mundo greco-romano, as crianças gozavam, em geral, de pouquíssima estima. Os romanos simplesmente numeravam suas filhas, e também seus filhos homens a partir do terceiro ou quinto não recebiam nomes. A manifestação mais clara deste status baixo conferido às crianças era o costume amplamente difundido de enjeitar recém-nascidos. As crianças eram descartáveis no sentido literal da palavra. Em Roma, o recém-nascido era deitado aos pés do pai. Se o pai não o levantava e reconhecia como filho, era abandonado. O verbo que em latim significa “levantar” (suscipere) passou a ser sinônimo para sobrevivência. Muitas das crianças abandonadas morriam. Outras eram criadas para serem escravos. Os rapazes eventualmente eram obrigados a se tornarem gladiadores, enquanto que as moças acabavam se prostituindo. Sêneca, o Velho, um contemporâneo de Jesus, relata que em seu tempo mendigos profissionais recolhiam as crianças abandonadas, mutilavam-nas e depois exploravam seu estado lastimável para conseguir esmolas [8].

Para os judeus no entanto, as crianças eram consideradas dádivas de Deus e era uma forma da continuidade da raça. Com a vinda do Messias esse quadro se tornou ainda mais importante, pois não só os adultos eram valorizados, mas também as crianças eram respeitadas.

A personalidade da criança é frágil, e os pais podem abusar de sua autoridade usando ironia e ridicularização. O excesso ou a ausência de autoridade provoca ira nos filhos e leva os filhos ao desânimo. Cada criança é uma pessoa peculiar e precisa ser respeitada em sua individualidade.

O Reverendo Hernandes Dias Lopes citando William Hendriksen aborda seis atitudes dos pais que provocam a ira nos filhos:

1) Excesso de proteção; 2) favoritismo; 3) desestímulo; 4) não reconhecimento do fato de que o filho está crescendo e, portanto, tem o direito de ter suas próprias ideias e de que não precisa ser uma cópia exata do pai para ter êxito na vida; 5) negligência; e 6) palavras ásperas e crueldade física [9].

Calvino diz que os pais, por sua vez, são exortados a que não irritem seus filhos com imoderada severidade. Tal atitude excitaria o ódio e os levaria a lançar de si o jugo [paterno] de uma vez para sempre. Consequentemente, em Colossenses 3.21 ele adiciona: “para que não fiquem desanimados". O tratamento bondoso e liberal conserva a reverência dos filhos para com seus pais, e aumenta a prontidão e a alegria de sua obediência; enquanto que a severidade austera e inclemente suscita sua obstinação e destrói seu senso de dever [10].

2º - Os pais devem cuidar da vida física e emocional dos filhos. O texto diz: “criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor”. O verbo traduzido por “criar” é a mesma palavra traduzida por “alimentar” em Efésios 5.29. O marido cristão deve nutrir a esposa e os filhos dando lhes amor e ânimo no Senhor. Não basta cuidar dos filhos fisicamente providenciando alimento, abrigo e roupas. Também deve lhes dar alimento emocional e espiritual [11].

3º - Os pais devem disciplinar os seus filhos. A palavra grega paideia, “disciplina”, tem o sentido de treinamento por meio da disciplina. Da palavra disciplina vem a palavra discípulo em português.

Provérbios 29.15 afirma que “A vara e a repreensão dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma, envergonha a sua mãe”; e é justamente a consequência dessa sabedoria proverbial que a Suécia está enfrentando, na prática, hoje em dia, por proibir as palmadas: uma geração de crianças mimadas. Tanto que em inglês a palavra “spoiled child” transmite a ideia de uma criança chata, com comportamentos inapropriados devido ao excesso contínuo de bajulações e a falta de repreensão. Spoiled significa estragado, deteriorado. 

Em provérbios 13.24 diz: “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina”.

A disciplina é um princípio fundamental da vida e uma demonstração de amor. Como nos diz em Hebreus 12.6-8: “porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos”.

4º - Os pais devem instruir e encorajar os seus filhos através da Palavra. Esse é o termo para admoestação; nouthesia no grego. Esse termo quer dizer educação verbal. É educar através da palavra falada, seja de ensino, seja de advertência, seja de estímulo. E esta instrução deve estar de acordo com a Palavra de Deus.

Mas observe que tudo isso deve ser feito de acordo com o Senhor: “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor”.  

A expressão “do Senhor” revela que os responsáveis pela educação cristã dos filhos não são: o Estado, a escola nem mesmo a igreja, mas os próprios pais.

Quando a Suprema Corte dos Estados Unidos deu seu veto contrário à obrigatoriedade de orar nas escolas públicas, o famoso cartunista Herblock publicou uma tira no jornal Washington Post mostrando um pai irado sacudindo um jornal para a família e gritando:

- Só faltava essa! Agora querem que a gente ouça as crianças orando em casa?

A resposta é: sim! O lar é o lugar onde as crianças devem aprender sobre o Senhor e a vida cristã [12]. 

CONCLUSÃO 
  
Ser pai cristão é entender que temos uma grande responsabilidade sobre os nossos ombros e que não podemos negligenciá-la, muito pelo contrário, devemos abraça-la com alegria e com maior afinco.

Sabemos que os dias estão muito difíceis para os nossos filhos e, principalmente, para educa-los nos caminhos do Senhor. A mídia e o governo estão fazendo de tudo para que os nossos filhos sejam tudo, menos servos do Senhor Jesus. O Estado está tentando a todo custo interferir na educação cristã; estão tentando desvirtuar os ensinamentos bíblicos adquiridos no lar e nas igrejas. Por isso, mais do que nunca, devemos estar preparados para guerrear pelos nossos filhos sendo exemplo para eles e para a sociedade. Sendo melhores crentes, melhores maridos e melhores pais para que amanhã nossos filhos possam andar em nossas pisadas e não errarem o Caminho, pois se trilharmos o Caminho que é Jesus, eles, pela fé, trilharão também. Por isso devemos ensinar No Caminho aos nossos filhos e não O Caminho como muitos tem feito.

Pense Nisso!

Fonte:  

1 – Lopes, Hernandes Dias. Pai, um homem de valor. Editora Hagnos, São Paulo, SP, 5ª reimpressão 2012: p. 43.
2 –Ibid. p. 48-50.
3 – Christenson, Larry. A Família do Cristão. Ed. Betânia, Venda Nova, MG, 5ª edição 1996: p. 161.
4 – Swindoll, Charles R. Jó, um homem de tolerância histórica. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 9ª reimpressão 2014: p. 18.
5 – Borges, Marcos de Souza. O Avivamento do Odre Novo. Ed. JOCUM, Paraná, 7ª edição 2011: p. 187.
6 – Grudem, Wayne e Rainey, Dennis. Famílias fortes, igrejas fortes – os desafios do aconselhamento familiar. Ed. Vida, São Paulo, SP, 2ª reimpressão 2013: p. 136.
7 – Wiersbe, Warren W. O Novo Testamento 2, comentário bíblico expositivo, vol. 6. Ed. Geográfica, Santo André, SP, 6ª reimpressão, 2012: p. 69. 
8 – Weber, Hans-Ruedi. Jesus e as Crianças. Ed. Sinodal, São Leopoldo, RS, 1986: p. 10,11.
9 – Lopes, Hernandes Dias. Efésios, igreja a noiva de Cristo. Ed. Hagnos, São Paulo, 2010: p. 165.
10 – Calvino, João. Série Comentários Bíblicos – Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses. Ed. Fiel, São José dos Campos, São Paulo, SP, 2015: p. 351.
11 – Wiersbe, Warren W. O Novo Testamento 2, comentário bíblico expositivo, vol. 6. Ed. Geográfica, Santo André, SP, 6ª reimpressão, 2012: p. 70. 
12 – Ibid., p. 70. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

NENHUMA IMAGEM DE ESCULTURA


Por Timothy Keller

Quando pensamos que Deus tem que agir conforme o nosso querer Ele não passa de um ídolo para nós. Ou, mais especificamente, o Deus que apoia os nossos planos, segundo o que nós achamos melhor para o mundo e a nossa história, esse Deus não passa de uma criação nossa, um deus falso. Nesse modo de agir, Deus é o nosso “parceiro”, alguém com quem nos relacionamos desde que ele faça o que queremos. Se ele quiser agir de outra maneira, nosso desejo é “despedi-lo” ou “hostilizá-lo”, como faríamos com um assistente pessoal ou um conhecido insubordinado ou incompetente.

Elisabeth Elliot no epílogo do livro Através dos portais do esplendor, escrito em 1996, em que relata a morte de cinco missionários, dentre eles o seu esposo Jim Elliot, ela relata que eles queriam alcançar o então isolado e hostil povo waorani da floresta amazônica. No entanto, eles foram mortos por esses índios, deixando para trás muitas viúvas e órfãos. Elizabeth Elliot desafia os pontos de vista secular e tradicional a respeito de Deus e do sofrimento como algo simples e ingênuo. Ela alerta contra a tentativa de “descobrir um raio de sol entre as nuvens escuras” que justifique os acontecimentos.

Elisabeth escreve:

Sabemos que, na história da igreja cristã, repetidamente o sangue dos mártires foi sua semente. Somos tentados a pressupor uma equação simples aqui. Cinco homens morreram. Isso resultará num número “x” de waoranis cristãos. Talvez sim. Talvez não... Deus é Deus. Se eu exigisse que Ele aja de modo a satisfazer a minha ideia de justiça, estarei destronando-o do meu coração. Esse é o mesmo espírito que provocou: “... se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27.40). Existe descrença, até mesmo rebelião no coração que afirma: “Deus não tinha o direito de fazer isso com os cinco homens, a não ser que...”.

O tema recorrente em toda a obra de Elliot é que confiar em Deus quando não o entendemos significa tratá-lo como Deus, e não como outro ser humano. É tratá-lo como glorioso, infinitamente superior a nós em bondade e sabedoria. Mas, como Jesus diz, a glória de Deus nunca foi revelada de maneira mais esplendorosa do que na cruz (Jo 12.23,32). Ali vemos que Deus é tão infinito e integralmente justo que Cristo precisou morrer pelo pecado, mas também que Deus é tão absolutamente amoroso que Jesus se mostrou disposto e feliz em morrer. Isso é sabedoria consumada, o fato de que o amor e justiça de Deus, aspectos aparentemente contraditórios, tenham sido cumpridos ao mesmo tempo. Portanto, confiar na sabedoria de Deus durante o sofrimento, mesmo quando ficamos sem entender nada, é lembrar da glória e do significado da cruz.

Vemos então que um dos propósitos do sofrimento é glorificar a Deus tratando-o como o Deus infinito, soberano, totalmente sábio e, mesmo assim, encarnado e sofredor, que ele é. Isso glorifica Deus aos olhos de Deus; é o comportamento mais apropriado que podemos ter.  E se nos comportarmos da forma apropriada com relação a Deus e às nossas almas, encontraremos, como Elisabeth Elliot afirma, o descanso que não está firmado em circunstâncias. 

Fonte: 

Keller, Timothy. Caminhando com Deus em mia a dor e ao sofrimento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2016, p. 189-193.           

sábado, 22 de julho de 2017

PERCORRENDO O CAMINHO DO MILAGRE ATRAVÉS DE NAAMÃ


Por Pr. Silas Figueira

Texto base: 2 Reis 5.1-19

INTRODUÇÃO

Ao lermos a história de Naamã nós nos deparamos com um homem respeitado e temido por todos na Síria. No entanto, apesar de toda sua autoridade e prestígio como comandante do exército do rei Ben-Hadade II e, por exercer esse cargo, ele era o segundo no poder, Naamã era um homem condenado, pois sob seu uniforme escondia-se o corpo de um leproso. Havia como nos diz o versículo primeiro, um “porém” na sua história de sucesso.

Naamã tinha um inimigo pessoal mais poderoso que todos os exércitos que ele havia enfrentado: a lepra. Por causa dessa doença ele vivia isolado dentro de sua própria casa.

Hanseníase, lepra, morfeia, mal de Hansen ou mal de Lázaro é uma doença infecciosa causada pelo bacilo Mycobacterium leprae (também conhecida como bacilo-de-hansen) que causa danos severos a nervos e à pele. A denominação hanseníase deve-se ao descobridor do microrganismo causador da doença, Dr. Gerhard Hansen. O termo lepra está em desuso por sua conotação negativa histórica.

A hanseníase é uma doença contagiosa, que passa de uma pessoa doente, que não esteja em tratamento, para outra. Demora de dois a cinco anos, em geral, para aparecerem os primeiros sintomas. O portador de hanseníase apresenta sinais e sintomas dermatológicos e neurológicos que facilitam o diagnóstico. Pode atingir crianças, adultos e idosos de todas as classes sociais, desde que tenham um contato intenso e prolongado com bacilo. Pode causar incapacidade ou deformidades quando não tratada ou tratada tardiamente, mas tem cura.

A escrava israelita que Naamã havia levado para sua casa era temente a Deus e se compadeceu de sua situação. Ela ousou testemunhar para sua senhora que havia um profeta em Samaria que poderia curar o seu senhor. Deus usou uma escrava para ser profetiza e missionária em terra estrangeira, testemunhando do Deus de Israel. Deus ainda hoje usa as coisas “loucas” para confundir as sábias (1Co 1.26-29). O Senhor usa todos aqueles que temem o Seu nome para que, em todo lugar, testemunhem a sua fé e o nome do Senhor seja exaltado.

Por onde você tem andado você tem testemunhado do Senhor? As pessoas têm visto em seus lábios a Palavra do Senhor ou você tem se calado tendo a oportunidade de testemunhar? Essa menina, apesar de ser uma escrava, não deixou de ser serva e boca do Deus Altíssimo em terra estranha. Assim como Daniel e seus quatro amigos posteriormente iriam testemunhar do Senhor lá na Babilônia, nós encontramos esta menina testemunhando na Síria. Muitas vezes será nos momentos de maior adversidade em nossa vida que o Senhor será exaltado através do nosso testemunho. 

Deus levou esta menina para lá para usá-la para alcançar Naamã e sua família. O Senhor tem os seus escolhidos e vai buscá-los onde eles se encontram. Mas para alcança-lo o Senhor permitiu que uma doença extremamente humilhante o atingisse.

Como disse Jó: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2).

Esse texto não só nos fala a respeito de um homem que alcançou a cura de sua enfermidade, esse texto nos mostra os caminhos percorridos por Naamã que o Senhor traçou para que ele alcançasse também a salvação.

A PRIMEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O SENHOR MOSTROU A NAAMÃ CINCO IDEIAS ERRADAS QUE ELE TINHA PARA ALCANÇAR A BÊNÇÃO.

Naamã quando ouve de sua esposa o testemunho da criada ele imediatamente crê na possibilidade do milagre. Devido a isso, ele vai até o seu rei e conta-lhe a respeito da sua doença e da possibilidade da cura em Israel. Só que o general Naamã cometeu cinco erros que muitos cometem ainda hoje.

1º - O primeiro erro: achar que a influência e autoridade reivindicam a bênção do Senhor (2Rs 5.5). Observe que Naamã vai para Israel com uma carta dada pelo rei da Síria. Em outras palavras o rei da Síria estava servindo de intermediário diante do rei de Israel para providenciar um encontro do seu general com o profeta Eliseu.

Creio que para Naamã desse jeito não haveria como o profeta não o receber, afinal de contas ele vinha em nome do rei da Síria e estava sendo intermediado pelo próprio rei de Israel. Era recebê-lo ou recebê-lo. Não havia meio termo, pois afinal de contas quem estava ali era o General Naamã.

O Senhor não olha para as nossas patentes e títulos pendurados em nossas paredes. O Senhor age em nossas vidas pela sua misericórdia graça, Ele não é influenciado pelo que somos diante dos homens.

Veja o que o apóstolo Paulo nos fala em Romanos 9.15-18:

“Pois ele diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão". Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus. Pois a Escritura diz ao faraó: "Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda a terra". Portanto, Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer”.

Naamã podia ser general, ter carta do rei da Síria, poderia ser enviado ao profeta Eliseu por intermédio do rei de Israel, mas nada disso valia diante do Rei dos reis e do Senhor dos Senhores. Como disse Isaías:

“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam” (Isaías 64.6 – NVI).

2º - O segundo erro: achar que o dinheiro compra tudo, até as bênçãos de Deus (2Rs 5.5). O rei da Síria respondeu: "Vá. Eu lhe darei uma carta que você entregará ao rei de Israel". Então Naamã partiu, levando consigo trezentos e cinquenta quilos de prata, setenta e dois quilos de ouro e dez mudas de roupas finas (NVI).

Naamã achou que podia pagar pela bênção de Deus assim como ele fazia com os deuses da Síria. Na verdade o dinheiro era para os falsos profetas que diziam ser portadores das bênçãos de seus deuses.

Hoje a coisa mais comum são as pessoas acharem a mesma coisa, pois afinal de contas o pastor fulano disse que se deve dar uma oferta de sacrifício para que a bênção seja alcançada. Aí você liga a TV e o que mais vê é isso. E isso vai desde oferta alçada a venda de objetos consagrados. É um sincretismo religioso nefasto que temos visto em muitas ditas igrejas por aí.

A palavra sincretismo tem origem na ilha de Creta, vem dos cretenses. Em Creta, cada uma das numerosas cidades queria ser a mais autônoma possível em relação às demais. Somente quando estavam em guerra contra um inimigo comum, os cretenses, que preferiam a independência, se uniam, tornando-se assim syn-cretenses (syn-cretismo). Nessa ilha havia todo tipo de cultos, filosofias e linhas de pensamento.

No entanto o Senhor Jesus deixou bem claro uma palavra a respeito disso que me parece que foi arrancada da Bíblia de muitos líderes por aí, que nos diz assim:

“À medida que seguirdes, pregai que está próximo o reino dos céus. Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai” (Mateus 107,8 – ARA).

3º - O terceiro erro: achar que o agir de Deus deve ser da minha maneira (2Rs 5.9-11). O grande problema de Naamã era que ele tinha uma ideia dos profetas dos deuses sírios. Ele achava que o profeta Eliseu viria até ele e agiria da mesma forma.

Esse problema de Naamã tem sido o problema de muitos de nós em achar que o Senhor tem que agir conosco sempre da mesma maneira. Entenda uma coisa: Deus age com cada um de uma forma. Isso porque envolve questões emocionais, espirituais, psicológicas. O “porquê” daquela situação que muitas pessoas desconhecem, mas que não foge do conhecimento de Deus. 

Não é porque Ele operou um milagre de um jeito que Ele fará sempre da mesma maneira.

Observe os milagres na Bíblia e você verá que o Senhor agiu de várias maneiras. Por isso que é importante contar sobre a bênção recebida, mas não fazer dela o referencial de como o Senhor irá agir com você ou com os outros.

Veja que assim como as pessoas pensaram em relação à morte de Lázaro, da mesma forma que pensamos hoje:

“Mas alguns objetaram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer que este não morresse?” (João 11.37 – ARA).

Não pensamos assim também muitas vezes? Só que o Senhor não age assim como queremos ou pensamos. Mas Ele age segundo o Seu querer.

4º - O quarto erro: não querer obedecer à ordem de Deus (2Rs 5.12). Naamã queria o milagre, mas não quis se sujeitar a ordem do profeta. Assim eu não quero. Desse jeito não vou fazer. “Nem que a vaca tussa!”.

Esse é o grande problema da maioria das pessoas. Elas querem a cura, mas não por em prática o obedecer as Escrituras. Querem a bênção, mas não o Senhor da bênção. Porque obedecer significa se sujeitar a vontade do Senhor. Mas isso muitos não querem.

Assim não! Desse jeito eu não quero!

Os anos passam, mas o homem continua o mesmo. Querem ser agraciados por Deus, mas não querem se sujeitar a Sua vontade.

5º - O quinto erro: achar que a bênção está nas mudanças sociais (1Rs 5.7). “Por acaso sou Deus, capaz de conceder vida ou morte?” Em outras palavras: “Não venha querendo que eu faça o que somente Deus pode fazer!”.

A cura de Naamã não estava nas mãos do rei de Israel. Não estava na política, ou nos médicos que haviam estudado nas melhores faculdades da época.

O mundo ocidental inteiro precisa ouvir essa exclamação do rei de Israel. Ao depararmos com o sofrimento, achamos que a solução está nas mudanças políticas, na técnica psicológica e terapêutica ou nos avanços tecnológicos. Mas a escuridão do mundo é profunda demais para ser dissipada por coisas dessa natureza. Em nossa arrogância, cometemos o erro de acreditar que temos a capacidade de controlar e derrotar a escuridão por meio do conhecimento [1].

O rei de Israel disse que ele não tinha tal autoridade e poder, mas tem gente que acha que a solução dos seus problemas está nas mãos das autoridades constituídas.

Eu não estou desmerecendo os médicos, os hospitais e tais melhorias, muito pelo contrário; eu sei da importância delas. No entanto a nossa vida está nas mãos do Senhor.
   
A SEGUNDA LIÇÃO QUE APRENDO QUE É O PRÓPRIO SENHOR QUE TRAÇA O CAMINHO DO MILAGRE NA VIDA DE NAAMÃ.

1º - Levando uma serva Sua para dentro da casa de Naamã. Quando Naamã invade Israel e leva cativa aquela menina ele não podia imaginar que o Deus de Israel estava providenciando aquele episódio. Isso não foi uma coincidência, mas uma providência. Era o cuidado de Deus para com Naamã, mesmo antes de ele o conhecer e servi-Lo.

Veja a história de José quando foi vendido e levado para o Egito. Veja o que ele fala para os seus irmãos:

Cheguem mais perto, disse José a seus irmãos. Quando eles se aproximaram, disse-lhes: Eu sou José, seu irmão, aquele que vocês venderam ao Egito! Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês. Já houve dois anos de fome na terra, e nos próximos cinco anos não haverá cultivo nem colheita. Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes as vidas com grande livramento. Assim, não foram vocês que me mandaram para cá, mas sim o próprio Deus. Ele me tornou ministro do faraó, e me fez administrador de todo o palácio e governador de todo o Egito. José, porém, lhes disse: Não tenham medo. Estaria eu no lugar de Deus? Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos. Por isso, não tenham medo. Eu sustentarei vocês e seus filhos. E assim os tranquilizou e lhes falou amavelmente. (Gênesis 45.4-8; 50.19-21 – NVI).

A história de José assim como dessa menina é mais uma prova de que o Senhor tem o domínio da história e que Ele a dirige segundo os seus propósitos. Por isso que na vida do crente não existe coincidência, mas providência.

2º - Fazendo com que o próprio Naamã desse crédito ao seu testemunho. A esposa de Naamã ao ouvir o testemunho da menina transmite ao seu marido, que por sua vez procura se informar se de fato era assim. Ao descobrir que havia um profeta em Israel foi para lá a fim de encontrar a cura.
Essa menina poderia ter se calado, mas ela foi dirigida por Deus para trazer uma palavra de esperança para aquela família. 

3º - Fazendo com que Naamã se prontificasse em buscar a cura. Imediatamente Naamã procurou ir para Israel e se encontrar com Eliseu. Quando Deus move os corações às pessoas não questionam o Seu agir, mas buscam logo fazer o que o Senhor orienta. 

A TERCEIRA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O CAMINHO DO MILAGRE EXIGIU DE NAAMÃ POSICIONAMENTO.

Uma coisa é Deus querer abençoar, outra é nós nos posicionarmos para recebermos a bênção. Há muitos anos eu e minha esposa estávamos orando para que o Senhor nos desse um carro, pois estava muito difícil para nós levar a nossa filha para a escolha e, principalmente minha esposa, ir para as escolas que ela dava aula. Assim, começamos a orar pedindo um carro. Mas, de repente, minha esposa me disse que era para pararmos de orar. Então lhe perguntei por que, e ela me disse que o motivo era simples: nem eu e nem ela sabíamos dirigir. Aí mudamos o modo de orar, passando a pedir a Deus condições de tirarmos a carteira de habilitação. Antes de a carteira chegar já tínhamos comprado um belo fusca 69 verde.

Por isso eu lhes afirmo que tem que haver um posicionamento por parte de cada um de nós para recebermos o que o Senhor tem para cada um de nós. Para Naamã o Senhor exigiu quatro coisas:

1º - Naamã teve que se humilhar (2Rs 5.10-12). Naamã estava acostumado com todos lhe servindo e dar ordens e todos lhe obedecerem, mas quando ele vai até o profeta a coisa é totalmente diferente. Aparentemente o profeta não se importou com a figura ilustre que estava à sua porta. Simplesmente o manda ir mergulhar sete vezes no rio Jordão que ele ficaria curado, e ponto final.

O arrogante Naamã não aceitou tal ideia. Quem o profeta pensava que estava ali?! Quem era ele para falar assim com ele?!

A Bíblia é muito clara quando nos diz que “embora esteja nas alturas, o Senhor olha para os humildes, e de longe reconhece os arrogantes” Salmos 138.6. O Senhor contemplou a arrogância de Naamã e lhe mostrou que ele não era nada, apesar de pensar que era alguma coisa. E Tiago também nos diz que “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes” (Tiago 4.6 – NVI).

Antes de abençoar Naamã o Senhor teve que tratar dessa arrogância que o general do exército Sírio tinha.

Naamã tinha que se despir na frente dos seus servos, tinha que se expor, iria mostrar a sua enfermidade para todos ali. Isso era muito humilhante para ele; mas era exatamente isso que o Senhor queria quebrar nele, essa arrogância. Essa superioridade em demasia. O pensar que era alguma coisa.

O Senhor muitas vezes faz isso com a gente. Louvado seja o nome dEle por isso!

2º - Naamã teve que ouvir conselhos (2Rs 5.13,14). Os seus soldados foram usados por Deus para quebrar o orgulho de Naamã e fazê-lo cair em si diante do que Eliseu lhe havia mandado fazer.

Já diz um ditado antigo: Quem não ouve conselhos ouve: “ah coitado!”.

Tem gente que diz que se conselho fosse bom não se dava, se vendia. Quem tem esse pensamento só quebra a cara na vida. Por isso dê ouvidos ao que a Bíblia nos ensina.

Provérbio 11.14 nos diz assim: “Não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselhos há segurança” (ACF).

Provérbios 19.20: “Ouve o conselho, e recebe a correção, para que no fim sejas sábio” (ACF).

Naamã ouviu o conselho de seus servos, por isso ele alcançou a cura de sua enfermidade.

3º - Naamã teve que obedecer. Ouvir é uma coisa, praticar o que se aconselha é outra coisa. Há uma distância muito grande entre ouvir e obedecer. Eliseu lhe deu uma instrução aparentemente simples, mas não era o que Naamã queria ouvir.

Obedecer é muitas vezes ir de encontro àquilo que não queremos fazer. É lutar com a nossa vontade em prol de um bem maior. No caso de Naamã a sua cura.

Muitas pessoas perdem a bênção, ou melhor, deixam de ganhar, porque se negam a obedecer ao que a Bíblia nos diz para fazermos. Ser cristão é mais que frequentar a igreja, é ser praticante da Palavra. Como nos fala Tiago:

“Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos. Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência. Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer” (Tiago 1.22-25 – NVI). 

4º - Naamã teve de entender que o Senhor abençoa onde quer, quando quer e se Ele quiser. O arrogante Naamã teve que se sujeitar a vontade de Deus e não aos seus caprichos, caso contrário deixaria a bênção que foi buscar escapar.

Naamã não é em nada diferente de muitos de nós. Aliás, Naamã é o retrato vivo de muitas pessoas hoje em dia. Gente que pensa que Deus está à sua disposição e que deve abençoá-lo da sua maneira e onde a pessoa quiser.

A QUARTA LIÇÃO QUE APRENDO É QUE O SENHOR CUROU MUITO MAIS QUE A DOENÇA FÍSICA DE NAAMÃ.

O Senhor não curou somente a lepra de Naamã, o Senhor sempre vai além da cura física, pois Ele olha outras enfermidades que nós não detectamos em nossas vidas. Todo milagre que não trás transformação, quebrantamento e uma nova postura diante do Senhor são questionáveis. A cura não pode ser um fim em si mesmo. Ela nos leva além. Ela tem que gerar na pessoa temor e tremor. Ela trás um crescimento espiritual.

1º - O Senhor o curou da sua arrogância (2Rs 5.15,16). Aquele que chegou a casa do profeta Eliseu cheio de si, agora está diante do profeta lhe pedindo, por favor. Quanta diferença! Deus curou Naamã da sua arrogância, da sua empáfia, do seu EU. Há pessoas que aprendem, como no caso de Naamã, mas já há outros que, infelizmente, não. Nem passando pelo que Naamã passou.

2º - O Senhor o curou da sua cegueira espiritual (2Rs 5.15-17). Naamã passou a ver o que antes era impossível devido a sua arrogância. Ele passou a ver que só o Senhor é Deus e fora dEle não há salvação. Ele abandonou os seus deuses que antes servia e passou a adorar ao único Deus criador dos céus e da terra, o Deus de Israel.

3º - E Senhor lhe deu a vida eterna (2Rs 5.18,19). Vá em paz! Muitas vezes somos obrigados a fazer coisas que não agradam ao Senhor, como no caso de Naamã que tinha que entrar no templo de Rimom, deus dos Sírios. Mas Naamã justificou por que tal atitude.

Naamã saiu da Síria em busca da cura e voltou transformado pelo Senhor. Saiu perdido, mas voltou pelo caminho da graça. Saiu morto e retornou de posse da vida eterna. Saiu em trevas, mas voltou em luz.

Ninguém que tenha tido um encontro real com o Senhor pode andar como andava outrora. Veja por exemplo os magos que foram visitar Jesus ainda menino. Quando eles encontram o Senhor eles são advertidos por divina revelação para retornarem por outro caminho (Mateus 2.12). Ninguém que tenha tido um encontro real com o Senhor volta a andar como andava. Como nos fala Paulo em 2 Coríntios 5.17:

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”.

CONCLUSÃO

Alguém já disse que no sofrimento não existe lugar para o ego. Naamã aprendeu isso não no sofrimento, mas na cura. Pois enquanto estava doente do corpo ele também estava doente da alma e do espírito. No entanto, no momento que se viu curado pela graça do Senhor voltou com o coração totalmente transformado.

O Senhor operou uma cura completa e não apenas superficial. Embora seja essa cura que a maioria dos pregadores oferece aos seus ouvintes. Por isso, as pessoas saem desses cultos tão enfermas quanto entraram. Talvez com a cura do corpo, mas sem ver o real sentido da vida, que é a vida eterna em cristo Jesus.

Naamã alcançou o pleno milagre em todos os sentidos. A cura física, da alma e do espírito.

E você já alcançou esse milagre?

Pense nisso!

Fonte:

1 – Keller, Timothy. Caminhando Com Deus em Meio à Dor e ao Sofrimento. Edições Vida Nova, São Paulo, SP, 2016: p.96.